'Mas, Camila! Você não está preocupada com a guerra?' - Alguém me pergunta depois que eu mando desligarem a televisão ligada desde de manhã na Globo News.

De certa forma, aliás, bastante até. Mas guerra o dia inteiro enche, só precisa do Jornal das 10, assim rola todas as notícias realmente importantes. E tem a internet, onde você procura a informação que você quer e não é obrigada a ficar ouvindo esses lixos de traduções instantâneas das repórteres da Globo e nem a ficar vendo as mesmas imagens do mesmo bombardeio de mais cedo. Credo, só uma vez por dia ficar vendo isso já está ótimo.

'Você não fica nem um pouco sensível?'

Sensível a que? A quem?

'Camila, isso é uma guerra DE VERDADE. Você nunca viu isso?'

Estou vendo. Provavelmente sei de mais desdobramentos da guerra que você. Olha só, me importo sim, sempre fico com a consciência pesada quando há morte de civis, meu sangue ferve quando ouço falar desse tipo de estratégia covarde e egocêntrica. Mas eu vou aproveitar é enquanto a guerra é do lado de lá, enquanto eu não estou no meio da batalha, enquanto as bombas não podem cair na minha cabeça ainda. Vou aproveitar isso para me manter lúcida e não me render às forças infindáveis da mídia para controlar minha cabeça.

Exagero? Não é não. Tudo bem que o Bush é doidão, psicopata, joselito sem noção, quero-ser-o-dono-do-mundo-mas-não-tenho-cacife-para-fazer-isso-sozinho e tudo mais, só que a imprensa só tem mostrado ele. Só ele, com bigodinho de Hitler e tudo mais, é só isso que está rolando por aí. E o Saddam, quando ataca, é para defender suas terras, né? O caralho! Saddam não é burro, não nasceu ontem e não é bonzinho nem coitadinho também.

Provavelmente estão, Saddam e Bin Laden, numa caverninha do Afeganistão, jogando gamão e tomando mate. De repente, um assessor de Saddam vai chegar a cabeça sobre seu ombro esquerdo e cochichará algumas poucas palavras no ouvido dele. Então Sadam pede licensa educadamente, se ausenta do aposento, pega um jipe e anda uns trinta quilômetros, pega um telefone e uma caixinha preta com um botão vermelho. No telefone, diz 'é agora' e aperta o botão. Pi. E aí? Umas quinhentas explosões no mundo inteiro. No Iraque, os poços de petróleo explodem causando crateras de 10 km de diâmetro e no resto do mundo inteiro sósias de Saddam levantam seus capuzes, sorriem e se explodem. Um deles vai estar do meu lado e eu vou morrer. Aí eu terei a eternidade inteira para ver a imprensa e a (dita) cobertura da guerra.

Aham. Bom, é possível, não é? Ah tá. E você vai achando que eu vou ficar pensando nisso tudo? Vai achando, meu bem! Na verdade essa é mais uma guerra da intolerância, mais uma coisa fora do meu controle e mais um assunto no qual eu não vou me meter. E nem vou servir de audiência para ela.

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