Na noite seguinte à que choveu lindo, fez mais frio do que eu precisava. E esse frio das seis da manhã é o mais gelado e cruel de todos. E mesmo assim eu estava quase sem roupa na janela, fumando um cigarro, com um monte de lágrimas querendo escorrer sem sucesso, pensando nos últimos dias que se passaram.

Um loucura de sentimentos estranhos percorrendo cada nervo do meu corpo, um monte de sensações ruins durante os dias, um vazio, uma procura, uma vontade de alguém, tudo me engolindo. E enquanto isso tudo acontecia do lado de dentro, essa fachada idiota tinha que continuar existindo e eu tinha que continuar a menina que é forte sozinha e se vira numa boa o tempo todo. E já que eu estou numa boa, eu posso e devo segurar a onda dos amigos. E eu acabo segurando. Mas advinha só como é que eu fico no final disso!

Ah! Mas agora está fazendo efeito demais, me abalando de verdade. E eu estou tremendo e acabo cedendo à tristeza antes da hora. E aí fico xoxa(?), sem paciência, e triste e com vontade de ficar sozinha e olhar as estrelas.

E o pior é que isso aconteceu no sábado, quando eu estava na situação ideal para matar a vontade de pessoas muito queridas, mas nem aproveitei. Deixei aquelas coisas que pegam no meu calo arrasarem com ele e desabei total. Saí para ver as estrelas e chorei baixinho, tentando esconder aquilo tudo que já estava mais do que claro. Ouvi as pessoas me procurando mas não apareci, só quando veio um chamado mais alto e mostrei a minha cara. E recebi um abraço foda de uma pessoa que eu gosto muito. E eu nem tinha o que falar e por causa disso nem falei. E as cervejas nem confortaram lá naquela hora. E eu nem consegui concentrar no filme e nem assisti ele direito. Na volta fiquei mais tranquila por causa da companheirinha maravilhosa que eu tenho a sorte de ter nessa vida.

E aí o frio do amanhecer o cinza que fica em volta um pouco antes do primeiro raio de sol. E o cigarro fumado só até a metade e a long neck virada em dois goles que acabaram de cortar a minha garganta gelada. E as duas fotos achadas por acaso e o choro que finalmente caiu. E a lembrança da sexta aloprada com o pessoal da faculdade. E as memórias do ensaio da melhor banda de todas e o tanto que significa para mim. E o papo de astrologia e o meu ascendente em peixes influenciando uma conversa que eu não estava entendendo muito. E deve ser bom ser sozinho desse tanto, mas só deve ser assim por... sei lá... proteção, medo, preguiça, sei lá. E Sigur-Rós que por acidente já estava no player. E aquele quarto bagunçado de cheio de coisas carregadas de sentimentos e lembranças. E eu que quero ele tanto e fico na dúvida o tempo todo se ele ainda me quer. E ela tão pesada e eu sei que não tem nada a ver comigo mas fico pesada junto. E a tranqüilidade nos olhos dos outros que me dão raiva. E a inocência. E o carinho desencontrado. E a necessidade de repetir tudo de novo mais uma vez. E o frio nos ossos que havia muito nem davam as caras.

Às cinco horas da tarde de domingo, após ter me recusado a atender todas as vezes que o telefone tocou, com um desânimo impressionante e um cigarro pela metade para fumar logo depois de um cigarro fumado em três ou quatro tragos, o interfone toca. 'Mi, vamos tomar uma?'

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