VICIADA DEMAIS NISSO
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27 - A vida chata de Fabíola
Fabíola não dorme nunca. Mas dorme sempre. Fabíola tem muitas meias coloridas. De todas as cores. Fabíola tem tantas meias que existem mesmo meias que ela nunca vai usar. Algumas meias de Fabíola, revoltadas com o esquecimento dela, resolveram sair poraí. Dizem que umas meias, vermelhas, entraram num baile da Sociedade Polônia e foram vistas dançando um bolero. Outras, amarelas, foram pegas ficando sujas num escorregador de uma pracinha da Duque de Caxias. Algumas verdinhas com brilhos estavam, ontem mesmo, passeando por entre taillers em um barzinho preto e branco de gente cinza em uma rua da moda camaleão. Dizem que uma apresentadora de telejornal começou a ler as notícias de cabeça pra baixo, ela, não as notícias, pra que todos notassem suas meias rosa de Fabíola. Fabíola, que não pára de trabalhar nunca, trabalha tanto que até esquece de dormir, e quando dorme, não sabe se está sonhando que trabalha, pois mesmo no sonho ela trabalha, chegou em casa e abriu o armário das meias. Lá dentro só tinham ficado, penduradas em um canto, tristes, umas meias pretas meio desbotadas e peludas. Fabíola as colocou e saiu bem feliz. Naquele dia, Fabíola, que devia trabalhar, não foi. Sentou na Sorveteria Apolo, pediu um sorvete de passas ao rum e esperou. Esperou. Esperou. Até que passou um sujeitinho bem atrevido que tirou suas meias e mordeu seus pés. Eles têm gosto de café. Cada vez que chove, o sujeitinho pendura Fabíola na janela e fica embaixo coando café pra tomar com o leite de uma gata prenha que ele guarda no bolso. A gata só dá leite quando escuta I Get Around e vai dormir sonhando com ondinhas barrentas de ácido e cogumelo. Seus filhotes têm as cores das meias perdidas de Fabíola.
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