Eu sempre me sentia meio no lugar errado no mundo, via que meus "amigos" eram pessoas que não se interessavam pelas mesmas coisas que eu. Ficava o tempo inteiro incomodada, procurando uma alma dentre tantas que eu conhecia que não risse de mim, do livro sempre debaixo do braço e do jeito inexplicável de organizar as músicas. Não é que eu não gostasse do pessoal que eu convivia, mas sentia o tempo todo que eu tinha que me adaptar a algumas coisas e fingir gostar de outras para não ser taxada o tempo inteiro como aberração. Atenção: eu rebolava para não ser a "doidinha" o tempo inteiro.
Amigos são como roupas.
E passou muito tempo e várias crises de auto-estima até eu finalmente perceber que talvez a calça-cintura-baixa-38 não era o modelo mais indicado para a minha personalidade, que eu tinha que procurar algo do meu tamanho. E só dando muitas voltas pelas lojas de departamento descobri que existia uma prateleira logo ao lado da padrão que tinha roupas de cores e cortes diferentes.
Mas quem disse que mudar é fácil?
A transição foi lenta. Eu comecei a levar duas vidas. Uma diante dos conhecidos, outra no computador, investigando um novo mundo pelas altas horas da madrugada. Chegava em casa altas horas e me entregava para às marvilhas do mundo digital. Descobri logo várias coisas, inclusive que aquele vizinho muito louco estava lendo um livro do Kafka que eu ainda não tinha lido. Comprei. Dois meses depois nós éramos melhores amigos.
Mesmo assim, eu continuava me enfiando nas sandálias e miçangas, deixando a poeira e o rock para as noites e finais de semana. Até que fui misturando aos poucos as coisas e etc e tal.
Enfim, o ponto é que antes a minha vida social era COMPLETAMENTE diferente da minha vida virtual. Totalmente separada. Hoje não tem jeito mais de separar isso tudo. Quem era real acabou percebendo que não dava mais para ser só assim e entrou na minha lista de contatos virtuais também. Quem era só real deu as caras, os abraços, as lágrimas, as brigas, tudo foi ficando muito junto. E confuso.
A qualidade melhorou em tudo, tudo. As amizades mais verdadeiras, os livros melhores, a internet mais útil, a música mais significativa. Só precisei procurar melhor.
No fim das contas, tem uma música que continua funcionando... Um pouquinho de cada vez, não é?
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