Ônibus, nove horas da manhã. Uma luta para entrar, já que nesse horário a quantidade de pessoas que não pagam passagem e ficam na parte da frente é muito maior, seja por direito adquirido, seja por excesso de lustra-móveis na cara. (Fico impressionada como essas pessoas tendem a ser grandes!).

Enfim. Passagem paga, roleta vencida, um lugar para me segurar garantido, já posso abrir meu livro e me dedicar exclusivamente àquele mundo de palavras que tanto me fascinam, certo? Errado.

Tem uma mulher de voz estridente dizendo que qualquer moedinha serve, que a instituição precisa de ajuda, que leite e feijão são o que eles mais precisam, que se alguém quiser ir lá na creche ela dá o telefone e o endereço, que a irmã dela está grávida e o cunhado desempregado. Patati-patatá.

Eu tento ignorar, porque acho uma das coisas mais erradas ir pedir dinheiro em ônibus. Se a instituição é séria, devia fazer uma campanha na comunidade dos arredores, principalmente comerciantes. Essa história de pedir em ônibus é picaretagem do começo ao fim.

Me dá vontade de cantar aquela música: "your story is so touching but it sounds just like a lie!"

Normalmente, eu ignoro e sou ignorada, mas não por essa mulher específica. Ela chega mais perto, decide falar olhando para mim e me cutuca eventualmente. Minha persistência em ignorar deve tirá-la do eixo, já que a mulher muda o discurso pacífico para "tudo o que você me der, deus vai lhe dar em dobro, se você me dá ignorância, é isso que vai receber em dobro."

Eu continuo olhando para o meu livro, forçando a concentação, enquanto ela continua falando com todos, mas enconstando em mim e agora pede também um real e oitenta e cinco centavos para "dar ao trocador".

Ouço barulhos de moedas, gente pedindo passagem e a mulher da voz estridente nunca acaba a fala e eu nunca mais vou conseguir ler o meu livro em paz, tenho certeza. Uma senhora chama a mulher, pega um número de telefone, promete roupas de nenê e leite, a mulher faz questão de buscar, a senhora faz questão de levar.

A mulher não cala a boca, a mulher não vai embora, pelo contrário, parece começar tudo de novo e eu já impaciente não consigo mais fingir ler o livro, passo a observar a janela. O senhor na minha frente olha, desacreditando no meu emprenho de ignorar aquela vozinha cuja dona me cutuca.

Agora já são duas creches que precisam de ajuda e a irmã está grávida é de gêmeos, então pode ser roupa de menino e menina, e o que eles mais precisam é leite, feijão e fraldas, tem até deficientes mentais na creche(!), quem quiser o telefone ela dá, ainda não completou um real e oienta e cinco centavos do ônibus, ela não estaria fazendo aquilo se pudesse fazer outra coisa, se alguém puder doar ela vai na casa da pessoa buscar... Como eu disse antes, patati-patatá.

Último ponto da Cristiano Machado, a mulher sai do ônibus, sem dar o dinheiro ao trocador e antes de largar da porta do ônibus fala, olhando no meu olho, que não conseguia mais deixar de olhar aquela coisa: "hoje é o dia da besta, só por isso que eu encontrei alguém como você mesmo".

Eu sorrio, muda, não falo nada.

O ônibus parte, os passageiros se irritam com a mulher, que vira assunto geral. A senhora finalmente desconfia, se pergunta se é golpe, pega o celular na bolsa e liga para o número que é falso, mas agora eu já consigo concentrar no meu livro de novo. Ufa. Será que eu sou a besta?

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5 Responses so far.

  1. hahahahahahahahhahaha
    Que divertido!
    Comigo não aconteceu nada no dia da besta.
    Será que eu sou tão besta assim?
    Sniff.

  2. Zecao says:

    Pelo caso, vc está mais com cara de Cristo... Como se não bastasse a ralação que é andar de ônibus.

  3. Bahasi says:

    Adorei esta crônica! É uma crônica, não é?
    Bjs

  4. Sou muito autocrítica pra chamar qualquer coisa que eu faça de crônica, mas considerarei o elogio!

  5. Letícia says:

    tô IMPRESSSIONADA com essa história.
    cruiz credo.

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